Relato de Parto – Cleo
(31 de Janeiro de 2016)Aviso aos navegantes: Textão à vista! Só leia se estiver com tempo (e saco) pra isso!
O ANTES:
Primeiro trimestre de 2015. Laura pediu uma reunião familiar para esclarecer que queria uma irmã, já que não queria ser filha única e todos os amigos da escola tinham irmãos. Sabíamos que o segundo fato era mentira, mas também sabíamos que ela estava doida pra ter um irmão mesmo. Conversamos e explicamos para ela que mais um filho não cabia no nosso orçamento familiar. De fato eu e Fred pouco tempo antes já havíamos conversado sobre esse assunto. Eu não queria ser mãe velha, então tinha dado o deadline para engravidar novamente só até os 35 anos. Em 2015 completaria 36, então o tempo estava se esgotando. Fred me convenceu que um filho a mais seria uma maluquice nossa, pois a grana estava sempre curta. E assim, pensando somente de forma racional e no nosso bolso, decidimos por ter somente a Laura. Chorei escondida por essa decisão, eu queria muito ter mais de um filho. Achava que um irmão seria o melhor presente que poderíamos dar para a Laura, mas não ter outro filho era a coisa mais inteligente a ser feita naquele momento de nossas vidas.O DURANTE:
Junho de 2015. Minha menstruação estava atrasada dois dias. Nunca atrasava. Eu tinha tirado o DIU em junho de 2014, mas logo depois tive ovário policístico e tive que tratar tomando anticoncepcional durante alguns meses. Fiquei curada, mas a ginecologista me disse que seria difícil engravidar tão cedo. Avisei ao Fred que iria parar com a pílula e que era pra ele ficar responsável por evitar uma nova gravidez. Você se cuidou? Pois é, nem ele. Eu fazia meu controle do período fértil por um aplicativo que baixei no celular. Fomos assaltados em abril e perdi meu controle. Acabei deixando pra lá e pimba: mentruação atrasada. Fiz o teste de farmácia numa segunda-feira.Sozinha em casa tive a notícia de que seria mãe novamente! No dia seguinte, completando 8 anos de casados, fiz uma surpresa pro Fred (e pra Laura): dei de presente de casamento o teste de farmácia positivo dentro de uma caixinha. Não sei quem ficou mais surpreso com a notícia. Laura pulava de felicidade na nossa cama. Fred sorria de nervoso e de alegria.
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| só quem passou por isso sabe o sentimento de ver essas duas listras rosas. |
Uhuu!!! Era a resposta que eu precisava para ficar tranquila e começar o planejamento do nosso parto "naturebão".
Uma amiga querida (Alow, Ana Sixx) me indicou a Maíra Libertad para o tão sonhado parto humanizado. Fomos até ela e Marina, no espaço A Nossa Casa. Chegamos lá prontos para uma sabatina de perguntas, dúvidas e etc. Acabamos nós sendo sabatinados por elas duas, afinal de contas elas é precisavam saber se eu poderia teria o perfil de gestante que pode parir em casa. Saímos de lá com a certeza de que estávamos no caminho certo, com as profissionais certas. Maíra e Marina nos passaram a segurança que precisávamos para seguir com o nosso desejo.
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| As rainhas do parto naturebão. |
Na primeira ultra, pelas minha contas da última menstruação, eu estava com aproximadamente 8 semanas de gestação. Mas como a vida é sempre uma caixinha de surpresas, descobrimos que engravidei e continuei menstruando normalmente, então na verdade eu estava com 15 semanas. Visualizem o bebê na barriga fazendo Gluglu Iéié com a voz do Sérgio Malandro.
Quase 4 meses de gestação! Logo descobrimos que seria uma outra menina: Cleo! (Não foi tão fácil a escolha do nome, mas isso é assunto pra outro post).
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| Em Saquarema com 4 meses de gestação. E tava achando minha barriga enorme... |
Eu já havia passado do primeiro trimestre, teoricamente o mais delicado, treinando pesado para fazer minha segunda maratona. Subindo ladeiras, fazendo treinos de tiros, etc. Tive que abolir a maratona dos planos, mas não as corridas. Acompanhei o Fred na sua primeira maratona em Foz do Iguaçu, ele nos 42km e eu com 11,5km. Completei a prova inteira, linda e exibindo meu barrigão de 6 meses com as Cataratas de plano de fundo.
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| Fiz mais sucesso que o primeiro colocado da maratona. |
Consegui correr até o oitavo mês. Depois disso as contrações ficaram muito frequentes e começaram a atrapalhar meus treinos. Tive que parar de correr, mas não de me movimentar. Terminei a gestação malhando e caminhando na areia. Cleo já era atleta dentro da barriga!
| Dias antes do parto. |
O PARTO:
Laura nasceu quando entrei na 40a semana. Estávamos contando com isso para o parto da Cleo. A data provável do parto era dia 31 de janeiro, último dia do mês mais quente do ano. Tínhamos uma lista enorme de itens para providenciar até a 37a semana de gestação, já que ela poderia nascer a qualquer momento a partir desta data.
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| listinha do parto |
Como dezembro é sempre um mês atribulado, decidimos por fazer o chá de fraldas em janeiro. Pensamos em fazer no início do mês, mas somos enrolados e só conseguimos marcar para o final de semana dos dias 17 e 18. No sábado faríamos o chá pros amigos do Rio e no domingo para a galera de Niterói.
Acordei no sábado, dia 17 e fui na manicure. No caminho lembrei que ainda faltava comprar o plástico que forraria a piscina no dia do parto. Mandei mensagem pro Fred dizendo que seria bom irmos na Leroy comprar isso assim que eu voltasse do salão. Ele não viu a mensagem, cheguei em casa e ele disse que compraria na segunda. Quem conhece meu marido já sabe como ele é do tipo “deixa a vida me levar”. Enquanto eu sou a senhora ansiedade, ele é o meu oposto, nada nunca é urgente e tudo pode esperar um pouco. Enfim, não fomos no sábado comprar o resto das coisas que faltavam da lista. Mas como não era somente isso que faltava, resolvi ficar a tarde toda passando as roupinhas da Cleo, tarefa que eu estava protelando há dias para fazer.
No final da tarde nos arrumamos e partimos para Santa Teresa, no hostel Santinhas de Santa, recém inaugurado por nosso amigo de faculdade Julio. O evento foi o máximo! Muitos amigos que não víamos há tempos, amigos que vemos com mais frequencia, familiares... Muita gente apareceu pra nos dar um abraço. Fred encheu a cara de cerveja e acarajé e só saímos de lá mais de uma da manhã comigo dirigindo de volta pra Niterói. Senti umas contrações na volta, mas nada demais.
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| Santinhas bombando |
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| Parte dos amigos que foram prestigiar Cleo |
Chegamos em casa e fomos dormir quase duas horas da madrugada. Quando deu umas quatro horas levantei pra ir ao banheiro como de costume. Chegando no banheiro vi que tinha feito um pouco de xixi na calça. Pensei comigo: “Cacete, a que ponto cheguei? Agora nem consigo mais controlar minha bexiga! Que falta de dignidade no final da gravidez.” Troquei de calcinha, voltei pra cama e de repente uma vontade louca de fazer xixi de novo. Corri pro banheiro e cheguei completamente molhada. Dessa vez tinha escapado muito xixi!
Demorei uns segundos pra entender que o xixi não era xixi. Era a água da bolsa que havia rompido! Mas como, se ainda era dia 18 e a data prevista pra chegada da Cleo era dia 31? Fiquei ali no banheiro tentando entender o que estava acontecendo e pirando na ansiedade, pois entraria em trabalho de parto a qualquer momento. Fiquei um tempo nessa paranoia até que resolvi trocar novamente de pijama. Peguei um absorvente que estava guardado no armário e fui acordar o Fred. Em vão. Tinha bebido tanto no chá que estava praticamente desmaiado. Vi que teria que lidar sozinha com aquela ansiedade, com as contrações que já deveriam estar a caminho e com a lista de coisas que ainda faltavam para o parto. Já que não ia mais conseguir dormir mesmo, decidi separar o que já tínhamos em casa: lençóis, toalhas, bolsa de água quente, roupinhas da Cleo (ainda bem que havia passado e arrumado no armário uma parte delas), lençóis descartáveis, absorvente pós parto...estava arrumando as coisas e esperando começarem as contrações, que estranhamente não chegavam nunca. Decidi tentar acordar Fred de novo:
– Fred...
– O quê? - Com a voz mais grogue do universo.
- A bolsa rompeu...
– O QUÊ???????????? O que fazemos agora? Ligamos pra Maíra? Como você está?
– Tá tudo bem, não entrei em TP ainda. Vamos esperar as contrações para ligar pra ela.
– Então beleza, vou voltar a dormir.
Virou pro lado e 5 segundos depois falou:
- Tá, não vou conseguir dormir de novo.
Ficamos então deitados conversando sobre o que faltava comprar e esperando o trabalho de parto começar. Amanheceu logo em seguida e nada. Fiz um grupo no whatsapp com meus pais, minha sogra, minha irmã, meus cunhados, Rosi - madrinha da Cleo, Fernanda - madrinha da Laura e Gisela - nossa amiga que iria fotografar o parto. Adicionei Maíra e Marina, as parteiras, mas logo retirei pq vi que seria uma cilada colocá-las num grupo que provavelmente seria frenético demais.
Logo que fiz o grupo, minha sogra mandou mensagem: “Tudo bem, Lud?” Respondi que tudo bem, que minha bolsa havia rompido, mas ainda não tinha entrado em trabalho de parto. À medida que as pessoas foram acordando, as mensagens foram ficando cada vez mais frenéticas. Na verdade, todo mundo tem aquela ideia de novela de que quando a bolsa rompe a grávida tem que correr pro hospital porque já está parindo. Então rolou uma comoção nacional dentro do grupo de whastapp.
Acordamos Laura, falei pra ela que a irmã estava prestes a nascer e ela falou: “Ah, mãe! Justo no dia do chá em que vão todos os meus amiguinhos??” Fiquei com vontade de rir, mas eu também estava apreensiva com isso. Havíamos marcado o chá pras 17 horas e eu mal sabia o que estava para acontecer. Mandei mensagem pra Maíra e ela pediu pra esperar pra ver se as contrações começariam. Caso não começassem logo, ela viria me monitorar pela manhã e assim conversaríamos para saber o que seria feito.
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| amazing things will happen! |
Decidi por confiar na Maíra. Iria esperar o quanto fosse possível para ter o tão esperado Parto Domiciliar. Estava em pânico de ter que ir pro hospital e transformar meu parto humanizado em um parto qualquer. Então, mesmo sabendo que a pressão da família seria enorme, eu tinha certeza do que queria e que iria manter minha decisão até o final.
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| Tá chegando a hora! As Valentes e Maíra aguardando Cleo se manifestar. |
Chegamos lá e estragamos a surpresa que Alexandra e Maria Julia estavam preparando para nós: uma mesa de festa linda, com bolo enfeitado de bebê, docinhos enrolados feitos por elas, plaquinhas, flores, borboletas, tudo feito com um carinho tão grande que não consegui acreditar quando vi! Eu e Fred ficamos muito emocionados com tanto amor! Realmente temos muito que agradecer cada amizade que conquistamos. Estamos rodeados de excelentes amigos. Que mais podemos querer da vida?
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| As responsáveis pela emocionante surpresa: Alê e Maria Júlia. |
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| Mesa linda! <3 |
Chegamos em casa, tomei um banho e logo depois meus pais chegaram numa ansiedade de dar dó. Eles bem que tentavam não demonstrar, mas estava na cara que estavam em pânico esperando as famosas contrações que teimavam em não chegar. Na hora combinada, a Maíra chegou, monitorou a pança, viu que estava tudo certo e ficou de sobreaviso caso as contrações começassem. Justo no final da gravidez fiquei nervosa. Fui dormir apreensiva com a possibilidade de ter que ir para o hospital.
Acordei exatamente às 4 da manhã com uma mensagem do meu pai no grupo do whatsapp: “E aí, começaram as contrações?”. Nada como uma pressãozinha básica pra começar o dia, né minha gente? Ponto pra quem achou que fiquei mais ansiosa ainda! Mas estava tão certa do que havia decidido que não voltaria atrás de jeito nenhum.
Nunca esperei tanto para começar a sentir dor. Vez em quando sentia minha barriga contraindo um pouco, mas nada especial. A manhã foi tensa, até que por volta das 10h da manhã veio a primeira tão esperada contração!
Começaram os trabalhos, povão!!!!
As contrações eram mais fortes que todas as que eu já havia sentido durante a gestação. E apesar de estarem bem espaçadas, havia ali uma sequencia lógica de tempo entre elas. Fred estava monitorando o tempo todo e já havia avisado Maíra e Marina pra virem para cá. Cleo estava a caminho!
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| Isso é só o começo... |
Fiquei no quarto esperando a Rosi chegar e enquanto isso Fred ia me amparando quando a dor surgia. Eu ficava tentando lembrar o que havia lido durante a gravidez sobre métodos para aliviar as dores no trabalho de parto. Como optamos por não ter doula, me senti um pouco desamparada nesse momento. Fred estava ali comigo, mas não sabia como ajudar a aliviar as dores que vinham cada vez mais fortes.
Gisela chegou. Me deu um abraço carinhoso e me avisou que se eu achasse que ela estava sendo invasiva demais com a câmera que era pra eu avisar. Na verdade nem sei porque ela falou isso, já que parecia invisível dentro do quarto. Rosi e Luisinha chegaram logo depois. Luisa tão carinhosa me trouxe um buquê de flores lindo! A partir do momento que Rosi chegou, não saiu mais do meu lado. Nesse momento percebi quão grande é a palavra sororidade. Só uma mulher consegue captar o que outra mulher precisa, dar apoio emocional, estar junto. Rosi foi incrível no que ela havia se proposto a fazer desde o início da gestação, quando a convidei pra ser madrinha da Cleo: me dar apoio emocional durante o trabalho de parto. Devia ser por volta de 13h quando Maíra e Marina chegaram. Meu pai, minha sogra e Laura também já estavam em casa. Ao todo éramos 11 pessoas. Nosso apartamento é pequeno, então acho que todos estavam meio apertados ali entre meus gemidos de dor e a falta de espaço físico para espairecer.
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Nem sei que horas eram, mas minha sogra levou Laura e Luisa para a casa dela em Itaipu. Nessa hora me senti aliviada, pois eu urrava de dor nas contrações e estava receosa de traumatizar as meninas. Apesar dos meus gritos Laura se mostrava serena. De vez em quando entrava no quarto, me dava um beijo, beijava o pai e saía. Para ela parecia que tudo aquilo ali era super natural. Ela deu um banho de tranquilidade em todos os adultos. Realmente temos muito a aprender com as crianças! E Laura sempre nos surpreende com suas atitudes, é de fato uma criança especial!
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| "Vai ficar tudo bem, mamãe." |
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| Tranquilidade antes da tormenta |
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| Contração do banheiro pro quarto. |
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| Aproveitando o clima tranquilo pra tirar um ronco... |
Pedi a bola de pilates para relaxar um pouco e Gisela conseguiu levar a dela pra mim. Glória! Eu estava apreensiva porque já estava há muito tempo sentindo dor e nada de montarem a piscina inflável no quarto. Eu ia do chuveiro pro quarto, do quarto pro chuveiro e ficava nessa andando pelo quarto tentando entender em que momento a piscina iria aparecer. Até que resolvi pedir pro Fred e daí ele e as parteiras encheram a banheira pra mim.
Que alívio! Já tinha lido relatos de que a água morna relaxa durante o processo, mas sentir isso na pele foi fenomenal! Apesar das contrações cada vez mais intensas e em intervalos de tempo cada vez menores, estar dentro da água me fez aceitar melhor quando a dor estava chegando. Meu mantra interno quando sentia que a contração se aproximava era “aceita que dói menos”. E assim fiquei durante muito tempo. Em algumas contrações eu sentia que deveria fazer força junto, já em outras eu sentia que só devia aceitar a dor chegar e ir embora. Era uma dor forte, intensa, mas quando você sabe que é uma dor que vai embora, consegue trabalhar a cabeça para aceitá-la da melhor maneira possível.
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| Mamys esquentando água pra banheira. Deve ter esquentado umas 30 panelas sem parar! |
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| Relaxando entre as contrações |
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| Comadre e Massagista |
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| Adicionar legenda |
Além da dor das contrações, comecei a passar mal do almoço que havia comido cedo. Comi pouco, mas era como se tivesse comido um boi. Vomitei várias vezes e a cada contração parecia que ia vomitar ainda mais. Esse mal estar permaneceu até o final do parto. Ô sorte...
Enquanto estava na banheira, comecei a ficar ainda mais nervosa pelo fato da Maíra e da Marina pouco se manifestarem. Eu queria respostas e elas mal ficavam perto de mim. Era um silêncio ensurdecedor. Acho que Fred e Rosi também sentiram isso e, por estar sem respostas, eu ficava a todo momento perguntando as horas. Me lembro de quando ser por volta de 16 horas, eu ter pensado assim: Cleo vai nascer às 18 horas, na hora da Ave Maria. Não tenho religião nenhuma, mas certos rituais de algumas religiões me tocam, e me recordo sempre da minha tia Rita ouvindo a Ave Maria às 18 horas e eu achar aquilo muito bonito. Enfim, coloquei na cabeça que teria só mais duas horas de dores incessantes até Cleo nascer. Comecei a fazer mais força ainda nas contrações, para acelerar o processo do parto, como se isso fosse fazer meu corpo dilatar mais rápido.
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| Enquanto eu clamava por respostas, Maíra e Marina estavam monitorando Cleo sem parar. Parto Humanizado, nada de toque desnecessário! |
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| O retrato da apreensão. |
Passado mais algum tempo, Maíra percebeu que meu trabalho de parto não estava avançando dentro da piscina. Sugeriu que eu saísse dali para debaixo do chuveiro, assim mudaria de ares e talvez a situação avançasse. Eu relutei, mesmo com Fred e Rosi insistindo para que eu fizesse isso. Eu sentia que deveria fazer, mas estava tão cansada que estar na banheira me relaxava muito entre as contrações. Houve momentos em que achei que até conseguiria dormir entre elas, tamanho era o relaxamento que sentia ali dentro. Todos inistindo para que eu saísse dali e eu dizia que não. Até que a Gisela chegou pertinho de mim e disse: “Lud, eu só consegui parir a Bebel depois de sair da banheira e entrar no chuveiro. Tenta sair daí que você não vai se arrepender”. Era o que eu precisava ouvir. Gisela não só ficou invisível enquanto fotografava, mas se mostrou presente na hora que eu precisava muito! Mais um momento incrível que meu parto me proporcionou!
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| A galera tentando me convencer a sair da piscina |
Entrei no chuveiro com Fred me segurando para não cair. Definitivamente as contrações se intensificaram muito. Eu estava bem fraca e se não fosse Fred ali, teria caído com certeza. Fiquei um tempo debaixo do chuveiro, mas não aguentei muito ficar de pé. Voltei pro quarto e deitei na cama. Já tinha lido que o pior jeito para parir é deitada, pois a força da gravidade não está ali pra ajudar, então eu sabia que seria uma péssima ideia ficar deitada, mas não tinha forças para ficar de pé. Nesse momento Maíra e Marina chegaram junto e ficaram ali por perto monitorando e dando o apoio que precisávamos.
Laura e Luisa, que já tinham voltado pra casa com minha sogra há bastante tempo, estavam jantando na casa da minha vizinha (Obrigada, Rosalee!). Eu já estava prestes a chorar. Não conseguia saber quanto de dilatação eu já tinha e mais quanto tempo teria que aguentar a dor. Acho que ninguém mais aguentava aquilo. Até que Maíra pediu pra eu colocar a mão e sentir a cabeça da Cleo ali, chegando. Sentir minha filha se aproximando me deu forças para continuar. Afinal de contas sou Valente ou não sou? Maíra percebeu nesse momento que Cleo estava encaixando errado, e que isso estava dificultando a saída dela, então pediu pra eu mudar de posição, virar pro outro lado. Foi incrível, eu virei e senti Cleo virando também. Como nosso corpo é mágico!
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| Os avós e Laurinha aguardando a chegada da pequena. |
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| Irmã e dinda |
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| Tirando forças não sei de onde. |
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| Fred ao meu lado o tempo todo. Te amo! |
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| Laurinha acompanhando tudo. |
Nesse momento o Fred começou a conversar comigo, fazendo uma metáfora do parto com a corrida, esporte que abraçamos para a vida e tanto amamos. Disse que eu estava nos kms finais da maratona da vida com ele, Laura e Cleo esperando por mim na linha de chegada.
Maíra me disse que o pior já tinha passado, que era só eu fazer a força final pra Cleo sair, que ela já estava lá.
De todas as contrações a única em que não gritei foi a que ela nasceu. Cleo saiu da minha força máxima no silêncio absoluto. Eram 22h53 do dia 18 de janeiro de 2016.
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| Finalmente Cleo nasceu! |
Silêncio que durou alguns segundos, já que a família estava toda lá no quarto e quando a cabeça da Cleo saiu, parecia o final da copa do mundo de 94 com o Galvão narrando “É tetra! É tetra!!!”. Só faltaram os fogos de artifício!
Maíra teve que pedir calma porque o resto do corpo ainda estava dentro de mim e eu precisava entrar em contração novamente para parir o restante, o que foi uma moleza depois que a cabeça saiu. Como Cleo ficou encaixada de maneira errada durante um tempo, nasceu com a cabeça ovalada e já chegou ao mundo sendo sacaneada pelo pai. Maíra nos confortou dizendo que rapidamente a cabeça voltaria ao formato normal, o que aconteceu mesmo, ainda bem!
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| Amor maior do mundo. |
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| Nossa pequena cabecinha de manga :) |
Não tenho palavras para descrever meu sentimento assim que Cleo saiu. Foi alívio e orgulho por ter conseguido parir, cansaço pelas 12 horas que fiquei ali, e um amor imensurável por aquele bebê que eu acabava de conhecer. A gestação da Cleo foi excelente, eu me senti bem, saudável, bonita e feliz por estar grávida. Mas não conseguia entender como conseguiria amar aquela criança como eu amava a Laura. Fiquei a gravidez inteira com isso martelando na minha cabeça, pois eu não conseguia criar um vínculo de amor com a Cleo, como criei com a Laura ainda dentro da barriga. Isso me angustiou durante toda a gestação. No entanto, olhei pra ela pela primeira vez e percebi que já a amava há meses.
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| Amor à primeira vista. |
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| Cleo mamando pela primeira vez. |
Pari a placenta e daí Maíra nos explicou como ela funcionou sendo a casa da Cleo durante a gestação. A placenta é incrivel e cheia de significado. Esperamos o cordão parar de pulsar e Fred cortou o que me ligou à Cleo durante todos esses meses. A partir daquele segundo ela estava viva por conta própria.
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| Fred cortando o cordão umbilical. |
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| a placenta |
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Depois do parto o clima de tensão se dissipou e Cleo nasceu trazendo consigo calma e paz para o ambiente. Maíra pintou a placenta e fez um quadro que vamos guardar para sempre simbolizando este momento único em nossas vidas.
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| Nosso próximo quadro para parede de casa! |
Parir em casa nos fez entender tanto sobre a vida, que sinto muito por todas as pessoas que não passaram ou não passarão por isso. A experiência do parto domiciliar é intensa, dolorosa, mas ao mesmo tempo inesquecível e bela. Ter todos que amamos por perto, vendo o novo membro da família nascer, não tem preço. Laura ter acompanhado o momento do nascimento da irmã foi uma das melhores coisas por que já passei na vida. Só tenho a agradecer por esse dia tão lindo que vivi.
O parto domiciliar veio no momento certo da minha vida. Hoje consigo entender a grandiosidade desse momento. É um privilégio ser mulher, gerar uma vida, sentir a vida crescendo dentro de si — com todos os incômodos e delícias da gravidez —e depois parir sentindo cada contração, cada átomo de energia que o parto carrega consigo. Sou uma mulher privilegiada por ter passado por tudo isso ao lado de quem amo.
Muito obrigada a todos que fizeram parte disso estando ali ao meu lado ou mandando energia positiva durante todo o dia. Tenho certeza que as boas energias estavam ali junto comigo a cada contração.
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| A cara estava acabada, mas a ocitocina estava rolando solta! É muito amor envolvido! |
Agora começaremos uma nova fase, cada um entendendo seu novo espaço nesta nova configuração familiar. O parto foi o começo da nossa família completa.
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| Viramos quatro a partir desse momento. |
















































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